É o título em português de um quase antigo filme americano, muito visto pelos profissionais da educação. Mas aqui é uma pequena homenagem a um grande cearense. Um POETA (assim mesmo em casplock, como diria minha filha letradissima!)Um educador, cuja frase permeia minhas lembranças juvenis e me acompanhou ao longo da vida de educadora também: "Ensino como quem reza, com a alma genuflexa." (ou seja ensinava, rezando, orando, de joelhos em louvor, alegria e gratidão... não é lindo?). Bom para meus três seguidores e parcos leitores um exemplo desta alma linda:
LÍNGUA NACIONAL
(Filgueiras Lima)
Língua dos canoeiros e seringueiros da Amazônia,
florindo em sonoros vocábulos indígenas,
cantando na insistência das vogais:
uiara... pororoca... uirapuru...
Língua dos vaqueiros românticos do Piauí,
enchendo as grotas de aboios tristes e longos: ecôôô... mansôôô...
Língua rimada, dos violeiros do Ceará,
língua cantada de todo o povo do Ceará!
Língua dos engenhos de açúcar de Pernambuco e Alagoas,
doce, na ternura, como um rolete de cana,
forte, no insulto, como um trago de aguardente.
Língua piedosa da Bahia de Todos os Santos,
que é também a língua das mandingas de Jubiabá,
língua dengosa da baiana que tem tudo
e apimentada como vatapá.
Língua carioca, mistura de todas as línguas,
mosaico de todos os idiomas que há no mundo.
Língua dos garimpeiros de Minas Gerais,
faiscantes de jóias e de pedrarias!
Língua sintética dos homens-dínamos de São Paulo,
exuberante de força, de seiva e de energia!
Língua dos pampas infinitos,
cheia de hipérboles e imagens,
insubmissa e viril como um potro selvagem.
Língua em que o gaúcho libérrimo fez à sua imagem...
Língua em que todas as mães brasileiras ninam seus filhos,
em que todos os lavradores nordestinos pedem chuvas a Deus,
em que todos os desgraçados encontram palavras de consolação...
Língua ardente, cantante, exuberante, original...
Língua da minha gente do Norte e do Sul!
Língua Nacional!
Por que tia? Porque sou tia de muitos e vó só de dois, por isso não é o blog da Vovó Dedê. Aqui esvaziarei o coração quando estiver muito cheio; preencherei minhas noites insones; inicio algo concreto para o tempo de aposentada que se avizinha.
Desejo escrever meu dia-a-dia difícil e revisar com palavras e sonhos meu cotidiano e comunicar meu interior, vivido e experiente. Encontrar amigos, leitores, parentes aos quais oportunamente poderei homenagear.
Desejo escrever meu dia-a-dia difícil e revisar com palavras e sonhos meu cotidiano e comunicar meu interior, vivido e experiente. Encontrar amigos, leitores, parentes aos quais oportunamente poderei homenagear.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Oração do Tempo ou "O Tempo Esconde o que é Eterno"
(Para Matheus e Thomás...)
Matheus e Thomás, abaixo texto da música que Maria Betânia canta escolhida para o vídeo-homenagem, organizado por seu papai, para homenagear família, familiares e amigos, sem o refrão (tempo, tempo, tempo). E no ensejo recomendo um livro muito bom e saudável (cujo título aqui se encaixa) que, apesar de não ser do círculo de livros restrito ao mercado, posto que direcionado e de caráter formativo, desejo recomendar a vocês, vale à pena conferir: "O Tempo Esconde o que é Eterno"
************
És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Vou te fazer um pedido
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Entro num acordo contigo
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
És um dos deuses mais lindos
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Ouve bem o que eu te digo
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Quando o tempo for propício
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definitivo
E eu espalhe benefícios
O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Apenas contigo e comigo
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Não serei nem terás sido
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Num outro nível de vínculo
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo
...
Matheus e Thomás, abaixo texto da música que Maria Betânia canta escolhida para o vídeo-homenagem, organizado por seu papai, para homenagear família, familiares e amigos, sem o refrão (tempo, tempo, tempo). E no ensejo recomendo um livro muito bom e saudável (cujo título aqui se encaixa) que, apesar de não ser do círculo de livros restrito ao mercado, posto que direcionado e de caráter formativo, desejo recomendar a vocês, vale à pena conferir: "O Tempo Esconde o que é Eterno"
************
És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Vou te fazer um pedido
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Entro num acordo contigo
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
És um dos deuses mais lindos
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Ouve bem o que eu te digo
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Quando o tempo for propício
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definitivo
E eu espalhe benefícios
O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Apenas contigo e comigo
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Não serei nem terás sido
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Num outro nível de vínculo
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo
...
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Amigos
O tempo... O que é o tempo? Nada... Tudo! Sei que passa rápido!
Até pouco tempo eu não diria minha idade nem para minha sombra, mas hoje vejo quão maravilhoso é chegar até aqui... Perdi tantos no caminho... Muitos nem chegaram aos trinta, aos quarenta!
No dia do meu aniversàrio, no ano passado, 01/03/2009, reuni ao meu redor pessoas que estiveram em diversos momentos da minha vida. Pessoas que nunca deixaram de estar ao meu lado para celebrar junto comigo a história de tantos momentos, as recordações boas e ruins, pessoas que estiveram presentes em momentos diversos da minha vida e junto comigo viveram a história de tantos momentos, fatos, atos, ações, reações, atitudes... que imprimem em cada uma delas um pouco de mim e vice-versa.
Nesse dia tão propício para exercitar o amor, dediquei de forma especial a todos os amigos presentes que celebraram comigo o dom da vida, um recorte da minha história em forma de músicas. Com amor preparei, assim como um vídeo, que foi exibido com imagens daqueles que lá se encontravam, marcados por suas passagens em minha vida, só que em momentos anteriores. Nas músicas selecionadas para o CD que presenteei aos que estavam lá, revivo etapas, fases da minha vida.
Há muitas outras canções que marcaram as diversas fases vividas que não foram editadas, algumas intrinsecamente vinculadas à minha história de fé e conversão, outras nem tanto assim. No CD que lhes entreguei está um pouco de mim nas palavras musicadas que contam histórias, alegram ou falam de encontros e de amor. Nelas me reporto ao meu mundo infantil, adolescente e adulto. Enfim, hoje, posso contemplar a intervenção de Deus na minha trajetória, desde toda eternidade.
Não há uma ordem cronológica na gravação delas, mas há uma intenção em cada uma das que selecionei, exceto “Tocando em frente”(12) e “ Pensando em Você“(17) que integram as escolhidas pelo prof. Alex Pires que gravou o CD, a quem dei liberdade para inserir outras músicas, a seu bel prazer. Puxa! Valeu Alex,que Deus lhe abençoe e ao seu matrimônio! Obrigada de novo! Felicidade!
Naquela noite a alegria era visível para todos os que fazem parte da minha grande família. Sorriso estampado no rosto de todos... Valeu todo sacrifício para organizar e realizar a festa, foi a última festa do meu aniversário comemorada também pelo meu amado genro-filho, Thiago. Deus é fiel! Guardada as imagens no álbum e na minha memória, para sempre.
Agradeci na ocasião e ainda hoje agradeço a presença de valor imensurável de todos naquela noite comigo, saibam que em cada um de vocês visualizo a imagem de Deus.
Janelas - porque a vida se renova a cada dia...
Alguém perguntou no fórum de uma comunidade no Orkut sobre o que se via da sua (minha) janela. Inspirada pela minha própria resposta, reportei-me às janelas do meu computador e escrevi:
“Desta minha janela eu contemplo o mundo. É desta janela que percebo a insignificância deste planeta chamado Terra! Daqui eu posso ver o quintal da minha amiga Sandra, numa cidade distante de mim, lá no estado de São Paulo...
Vejo o sorriso aberto e franco de Camila e seu mano Dudu, em sumárias roupas de banho numa piscina de um límpido azul... Contemplo, com certa ternura, o rostinho meigo de Helena a neta querida da minha virtual amiga Isa,...
Daqui, posso acompanhar o drama da Ju, lá nas Minas Gerais, com a doença de sua filhinha Lorena, que prematuramente, aos 5 anos, partiu para a Jerusalém Celeste, em decorrência de uma leucemia, que lhe roubou a vitalidade...
Assim também, testemunho o crescimento afetivo, profissional, emocional, psicológico, espiritual de uma quase centena de pessoas espalhadas pelo planeta: na América Central, na América do Norte, na Europa e na África... só escapando disso, por enquanto a Ásia, porque a Oceania de certa forma a gente também acompanha. Tudo isso é o que me possibilita esta janela do meu computador!
Agora, da janela do meu apartamento posso contemplar o nascer e o pôr do sol, em certo período do ano...
Também posso compreender, pela visão concreta, como se dão os fatos que apontam as estatísticas sobre a grande diferença social existente em meu país: vendo crescer, da noite para o dia, uma favela num terreno desocupado que existia em frente ao prédio onde moro!”
Assim, porque a vida se renova a cada dia, porque perdi no blog antigo, o texto completo escrito com base nesta resposta aqui transcrita, resolvi repostar... também porque é tempo de resgatar a memória.
“Desta minha janela eu contemplo o mundo. É desta janela que percebo a insignificância deste planeta chamado Terra! Daqui eu posso ver o quintal da minha amiga Sandra, numa cidade distante de mim, lá no estado de São Paulo...
Vejo o sorriso aberto e franco de Camila e seu mano Dudu, em sumárias roupas de banho numa piscina de um límpido azul... Contemplo, com certa ternura, o rostinho meigo de Helena a neta querida da minha virtual amiga Isa,...
Daqui, posso acompanhar o drama da Ju, lá nas Minas Gerais, com a doença de sua filhinha Lorena, que prematuramente, aos 5 anos, partiu para a Jerusalém Celeste, em decorrência de uma leucemia, que lhe roubou a vitalidade...
Assim também, testemunho o crescimento afetivo, profissional, emocional, psicológico, espiritual de uma quase centena de pessoas espalhadas pelo planeta: na América Central, na América do Norte, na Europa e na África... só escapando disso, por enquanto a Ásia, porque a Oceania de certa forma a gente também acompanha. Tudo isso é o que me possibilita esta janela do meu computador!
Agora, da janela do meu apartamento posso contemplar o nascer e o pôr do sol, em certo período do ano...
Também posso compreender, pela visão concreta, como se dão os fatos que apontam as estatísticas sobre a grande diferença social existente em meu país: vendo crescer, da noite para o dia, uma favela num terreno desocupado que existia em frente ao prédio onde moro!”
Assim, porque a vida se renova a cada dia, porque perdi no blog antigo, o texto completo escrito com base nesta resposta aqui transcrita, resolvi repostar... também porque é tempo de resgatar a memória.
sábado, 27 de março de 2010
Para Refletir - Escutatório (de Rubem Alves)
Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma“. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas - coitadinhas delas - entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver e preciso que a cabeça esteja vazia.
Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas são a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise...) Voltando ao ônibus. Falavam de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia - a enfermeira nunca acertava -, dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, o aplauso, a admiração, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: “Mas isso não é nada...“ A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.
Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.“ Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg - citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas.“ Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não “evangélico“), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.“ Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.“ Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.“ E assim vai a reunião.
Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em “U“ definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: “Meus irmãos, vamos cantar o hino...“ Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós - como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa - quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto... (Fonte:O amor que acende a lua, pág. 65.)
na Web:
http://www.rubemalves.com.br/escutatorio.htm
Boa História real:
www.naoquerooutrolugar.blogspot.com
Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que “não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma“. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas - coitadinhas delas - entram e caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver e preciso que a cabeça esteja vazia.
Faz muito tempo, nunca me esqueci. Eu ia de ônibus. Atrás, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do Nordeste gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto maior o sofrimento, mais bonitas são a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise...) Voltando ao ônibus. Falavam de sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames complicados, das injeções na veia - a enfermeira nunca acertava -, dos vômitos e das urinas. Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, o aplauso, a admiração, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia. Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: “Mas isso não é nada...“ A segunda iniciou, então, uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os sofrimentos da primeira.
Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.“ Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava Lichtenberg - citado por Murilo Mendes: “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas.“ Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não “evangélico“), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voltado para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando. Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais. Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir. Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir são duas as possibilidades. Primeira: “Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava eu pensava nas coisas que eu iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.“ Segunda: “Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.“ Em ambos os casos estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: “Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.“ E assim vai a reunião.
Há grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos, escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia: às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns poucos bancos arranjados em “U“ definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam, levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: “Meus irmãos, vamos cantar o hino...“ Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. E música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar. A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se as portas de um mundo encantado que mora em nós - como no poema de Mallarmé, A catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa - quando ficamos mudos, sem fala. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto... (Fonte:O amor que acende a lua, pág. 65.)
na Web:
http://www.rubemalves.com.br/escutatorio.htm
Boa História real:
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De novo sobre a FÉ - Heresia
O que vem a ser, pois, o herege?
É aquele que, após o batismo, nega com pertinácia qualquer verdade que se deva crer com fé divina e católica, ou duvida pertinazmente a respeito dela, uma vez que o Direito Canônico assim define a heresia:
“Chama-se heresia a negação pertinaz, após a recepção do batismo, de qualquer verdade que se deva crer com fé divina e católica, ou a dúvida pertinaz a respeito dela” (cân. 751).
É essencial ao herege, pois, negar com pertinácia. Não seria herege quem negasse uma verdade sem obstinação, sem saber que se trata de verdade de Fé
É aquele que, após o batismo, nega com pertinácia qualquer verdade que se deva crer com fé divina e católica, ou duvida pertinazmente a respeito dela, uma vez que o Direito Canônico assim define a heresia:
“Chama-se heresia a negação pertinaz, após a recepção do batismo, de qualquer verdade que se deva crer com fé divina e católica, ou a dúvida pertinaz a respeito dela” (cân. 751).
É essencial ao herege, pois, negar com pertinácia. Não seria herege quem negasse uma verdade sem obstinação, sem saber que se trata de verdade de Fé
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